Crítica · Bastidores

Projeto aproxima comunidades de equipamentos culturais em Salvador

ResumoO Projeto Cultural de Acesso em Salvador aproxima moradores de Águas Claras de equipamentos como a Flipelô e centros culturais. A iniciativa privada promove visitas inéditas para reduzir a desigualdade de acesso à cultura na capital baiana. A ação conecta comunidades periféricas a eventos literários e espaços artísticos, ampliando a participação social e o repertório cultural dos participantes.

Moradores de Águas Claras, em Salvador, visitaram a Flipelô e equipamentos culturais pela primeira vez. Projeto da iniciativa privada busca reduzir a desigualdade de acesso à cultura.

Flávio Negrão
Flávio Negrão Produtor cultural · 09 de agosto de 2026
13 filmes suspense thriller que prendem do início ao fim
9.2/10
VereditoMoradores de Águas Claras, em Salvador, visitaram a Flipelô e equipamentos culturais pela primeira vez. Projeto da iniciativa privada busca reduzir a desigualdade de acesso à cultura.

Projeto aproxima comunidades de equipamentos culturais em Salvador

No sábado (8), moradores da comunidade de Águas Claras, em Salvador, visitaram o centro histórico da cidade e a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) pela primeira vez. O passeio foi possível graças ao Circuito Cultural, projeto da iniciativa privada criado pelo Instituto Motiva. O objetivo é ampliar o acesso à cultura para estudantes da rede pública e participantes de organizações sociais, promovendo visitas gratuitas a instituições culturais de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.

O que é o Circuito Cultural e como ele amplia o acesso à cultura

O Circuito Cultural é um projeto do Instituto Motiva, da iniciativa privada, que leva grupos de comunidades e estudantes a equipamentos culturais. A ação em Salvador incluiu visitas à Flipelô, à Fundação Casa de Jorge Amado e ao Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab). Para muitos moradores de Águas Claras, essa foi a primeira oportunidade de conhecer esses espaços.

A iniciativa surgiu diante de um cenário em que o acesso a equipamentos culturais pela população no Brasil ainda é limitado e desigual, segundo o Instituto Motiva. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que menos de um terço dos municípios brasileiros conta com museus, e a visitação a esses espaços é concentrada entre as faixas de maior renda.

Moradores de Águas Claras visitam a Flipelô pela primeira vez

Entre os visitantes estavam mulheres com mais de 60 anos, frequentadoras da Biblioteca Comunitária Condor Literário. Soraia Santos Pinto, 61 anos, moradora de Águas Claras, passou por um quadro de depressão e encontrou na biblioteca comunitária um recomeço. Hoje, ela tem aulas de boxe, capoeira e dança no local.

Soraia nunca havia pisado na Flipelô, na Fundação Casa de Jorge Amado ou no Muncab. A experiência a marcou profundamente. "A gente tem que fazer isso mais vezes. Isso abre o nosso entendimento. Isso é cultura e é bom para a gente. Eu amei. Tem pessoas que nunca tinham vindo no Pelourinho, nunca estiveram aqui. Eu acho que eles deviam fazer isso com a maioria da comunidade, levar a cultura ou trazer o povo até a cultura, já que a cultura não vai nas periferias", disse ela.

Crianças da capoeira Unira conhecem o Muncab

Maian Oliveira, 36 anos, participou do passeio com seus três filhos, integrantes da capoeira Unira. Foi a primeira vez que eles visitaram o Muncab. "Estou fazendo um passeio com minhas crianças. Eles fazem parte da capoeira Unira. Aí eu vim trazer eles para dar um passeio. Eu acho a cultura muito importante. Ela mostra quem nós somos, de onde nós viemos. E é muito importante a gente apresentar isso para nossas crianças, que estão chegando agora", contou.

Em entrevista à Agência Brasil, Maian explicou que dificilmente consegue levar as crianças ao centro histórico para um roteiro cultural. "No dia a dia é mais difícil trazer as crianças. Quando se tem mais de duas crianças, se torna ainda mais difícil porque o transporte fica um pouco complicado", relatou.

A distância física e simbólica entre Águas Claras e o centro histórico

Águas Claras fica a cerca de 25 minutos do centro histórico de Salvador. Mesmo vivendo na capital baiana, muitos moradores relatam dificuldades para acessar os equipamentos culturais da cidade. Aline Dias, articuladora territorial do bairro, explica que a comunidade vive muito de si mesma, em rede, com organizações que se apoiam. "É uma comunidade que tem aspectos muito tradicionais, porque por muito tempo ficou à margem da cidade", disse.

A chegada do metrô e a construção de uma rodoviária começaram a mudar essa realidade, ampliando as ações sociais e culturais no bairro. "Tenho visto uma certa mudança no comportamento da própria comunidade. Primeiro sobre a autoestima da comunidade em relação à cidade. Agora ela já começa a ter mais coragem e confiança para poder expor o que acontece de bom por lá", observou Aline.

A importância das políticas públicas e do investimento comunitário

Apesar das ações sociais e culturais desenvolvidas no bairro, como a biblioteca comunitária, Aline defende a criação de políticas públicas para ampliar o acesso das comunidades à cultura. "Precisamos pensar em iniciativas que valorizem ou que deem vazão ao que acontece na comunidade", ressaltou.

Ela também destacou o potencial literário das comunidades. "Por mais que elas não participem de feiras literárias, elas vislumbram feiras e querem reproduzir isso em suas comunidades também, porque elas entendem que a literatura é muito importante e que ela é um espaço para retratar as suas vivências e a sua cultura", afirmou. "Se houver investimento nas comunidades, a gente vai aumentar as esferas literárias. As comunidades têm muito a falar, tem muito a escrever."

O papel do Circuito Cultural na quebra de barreiras

Aline reforçou que a população também quer participar de ações fora de seus territórios. "A Flipelô não era, até então, parte do repertório da cidade. Águas Claras estava muito à parte do que estava acontecendo. Então essa [atividade de sábado] foi uma grande oportunidade. As pessoas estão muito felizes", disse.

Ariane Teles, especialista do Instituto Motiva, explicou o objetivo da ação. "Nosso maior desejo com essa ação foi, primeiramente, quebrar essa barreira do acesso. E, segundo, a gente entende que a cultura é realmente uma ferramenta poderosíssima de transformação social, de educação e de ampliação de repertório", afirmou.

Dados reforçam a desigualdade no acesso à cultura

A edição 2025 da pesquisa Hábitos Culturais, realizada pelo Observatório Fundação Itaú, apontou que apenas 16% dos brasileiros visitaram um museu nos últimos 12 meses e que 13% participaram de festivais literários. Os números sinalizam um baixo nível de consumo de cultura pela população brasileira, reforçando a importância de iniciativas como o Circuito Cultural.

Perguntas Frequentes

O que é o Circuito Cultural?

O Circuito Cultural é um projeto do Instituto Motiva, da iniciativa privada, que promove visitas gratuitas a instituições culturais para estudantes da rede pública e participantes de organizações sociais em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.

Quem pode participar do Circuito Cultural?

O projeto atende estudantes da rede pública e participantes de organizações sociais, como a Biblioteca Comunitária Condor Literário e a capoeira Unira, em Salvador.

Quais equipamentos culturais foram visitados em Salvador?

Os moradores de Águas Claras visitaram a Flipelô, a Fundação Casa de Jorge Amado e o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab).

Por que o acesso à cultura é desigual no Brasil?

Segundo o IBGE, menos de um terço dos municípios brasileiros conta com museus, e a visitação é concentrada entre as faixas de maior renda. A pesquisa Hábitos Culturais 2025 mostrou que apenas 16% dos brasileiros visitaram um museu no último ano.

Como levar cultura às periferias?

Iniciativas como o Circuito Cultural e políticas públicas que valorizem as comunidades são caminhos apontados pela articuladora Aline Dias para ampliar o acesso e dar vazão ao que acontece nos territórios.

Leia também

Publicidade